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Elenice é pianista, compositora e arranjadora. Bacharel pela UnB e mestra pela UFG, atualmente leciona piano popular na Escola de Música de Brasília.
O piano popular de Cesar Camargo Mariano
Publicado em 04/08/2008O artigo a seguir é resultante do trabalho de dissertação do mestrado, desenvolvido na UFG em 2007, intitulado "O PIANO POPULAR DE CÉSAR CAMARGO MARIANO: A DESCRIÇÃO DE UM PROCESSO DE TRANSCRIÇÃO. Seu principal objetivo descrever um modelo de transcrição musical pianística, tomando como exemplo três performances registradas em áudio e vídeo por César Camargo Mariano, considerado hoje um dos principais pontos de referência no estilo brasileiro de tocar piano popular. A partir destas performances foram elaboradas as transcrições que serviram de base para a descrição do processo que as criou. As partituras transcritas resultaram em uma escrita relativamente complexa, traduzindo um dos modelos de música popular brasileira instalados na era contemporânea. As transcrições forneceram diretrizes para a interpretação mais correta da obra, uma vez que o processo incluiu, necessariamente, além da escrita dos parâmetros musicais, elementos de estilo e expressão do autor e da obra transcrita.
Essa primeira parte está subdividida da maneira a seguir. Cada divisão será publicada quizenalmente.
1/5 - Introdução
2/5 - O declínio pré-maturo da bossa-nova e o surgimento de outros estilos
3/5 - Biografia de Cesar Camargo Mariano
4/5 - A parceria de Cesar e Elis
5/5 - A evolução de sua técnica e uso de instrumentos eletrônicos
Introdução
Este artigo não tem como objetivo pormenorizar o complexo e diversificado trajeto profissional de César Camargo Mariano, nem analisar sua importância como artista dentro do cenário musical brasileiro, pois um maior aprofundamento sobre estes aspectos fugiria ao escopo desse trabalho.
Uma busca sucinta sobre sua biografia encontra número razoável de comentários de cunho crítico-informativo, quase sempre elogiosos, sobre suas performances em situações variadas, enquanto matérias com enfoque analítico quase nunca são encontradas. Trechos citados aqui, extraídos de depoimentos e entrevistas de Mariano procuram incluir dados mais relevantes para o bojo deste trabalho, sem pretender abordar ou explicar suas influências, nem sua interferência no vasto ambiente artístico no qual se movimenta.
É certo, porém, afirmar que o contexto paulistano das décadas de 1950 a 1970 é de vital importância em sua formação musical e em sua ascensão aos vários segmentos do mercado de trabalho daquele momento histórico. Influências artísticas externas e turbulências sócio-políticas internas agitaram as mentes jovens da época, e Mariano, entre elas, absorveu o fluxo dinâmico de inovações e questionamentos naqueles anos decisivos em sua formação profissional. Aliadas ao seu talento inato, aquelas situações peculiares instigaram sua versatilidade e o impulsionaram a moldar, ao lado de outros musicistas de sua geração, as bases de um novo enfoque para a música popular brasileira e mais especificamente do piano popular contemporâneo brasileiro.
Neste ítem são focalizados particularmente alguns aspectos da música popular brasileira circunscritos ao intervalo que vai do início da década de 50 ao final dos anos 70, período que abrange o início da formação musical de César Camargo Mariano e se estende até os anos do seu amadurecimento profissional.
A década de 50 assistiu a um tipo de desenvolvimento com inusitado entusiasmo pelo novo, que encorajou o surgimento de variados movimentos artísticos, nas artes plásticas, no cinema, no teatro, na literatura, na arquitetura e, de modo especial, na música popular. A paisagem musical urbana da cidade de São Paulo recebia uma profusão de gêneros estrangeiros - boleros mexicanos, tangos argentinos e canções italianas - que ganhavam espaço nas emissoras de rádio, dividindo audiências com marchinhas de carnaval e musicais norte-americanos, todos disputando lugar nas “paradas de sucesso” da época. Pipocavam concursos de reis e rainhas do rádio, e multiplicavam-se os fãs-clubes dos cantores e cantoras mais populares. As big-bands continuavam a ter grande influência, enquanto o jazz era muito divulgado e bastante apreciado entre os músicos urbanos, especialmente os que trabalhavam na noite.
No cenário paulistano da década de 1950 surgiam algumas das realizações mais importantes da arte brasileira. Na literatura, Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, era lançado em 1956, no cinema, Rio Zona-Norte de Nelson Pereira dos Santos, em 1957. Nas artes plásticas a Bienal de São Paulo era criada em 1951, e o movimento neo-concreto nascia em 1959, ligado à poesia concreta. No Teatro de Arena estreava, em 1958, Eles não Usam Black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri, enquanto na arquitetura era executado o projeto modernista de Brasília, de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, inaugurada em 1960.
A Bossa Nova tem seu início oficial em 1958, com o lançamento do disco de 78rpm Chega de Saudade (Odeon, 1958), no qual João Gilberto[1] interpreta a obra clássica homônima de Tom Jobim[2] e Vinicius de Moraes[3]. Principal representante da linguagem musical moderna, Gilberto apresenta uma maneira inovadora de emitir a voz que, apoiada por uma concepção harmônica diferente, formam a marca inerente da bossa nova. Mas o elemento mais representativo introduzido por ele é a "batida" com a qual percute os acordes ao violão, imprimindo-lhe uma sonoridade diferente de tudo que até então havia sido feito na música popular brasileira. Esta forma de tocar violão dá origem a um estilo musical absolutamente novo, que exerce enorme influência em grande parte dos músicos brasileiros mais importantes da época e, atravessando fronteiras, acaba representando uma das mais significativas influências sobre a música americana, especialmente sobre o jazz.
[1] João Gilberto (n. 1931), cantor e violonista, é considerado o criador da bossa nova e a maior influência, desde sua geração, na música popular contemporânea.
[2] Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim (1927-1994), considerado o maior compositor brasileiro do século 20, é o criador do "maior clássico da bossa nova, Garota de Ipanema que, gravada em 1963 por João Gilberto, sua mulher Astrud, o saxofonista do cool jazz Stan Getz e Tom Jobim nos EUA, expandiria o estilo pelo planeta" (Tarik de Souza, 2004).
[3] Vinicius de Moraes (1913-1980), poeta, é um dos principais letristas da música popular brasileira contemporânea, conhecido principalmente pela parceria com Tom Jobim nos anos 1960, época do auge da bossa nova.
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